Quando Adolf Hitler desencadeou a Operação Barbarossa, na II Guerra Mundial, e a Alemanha conquistou a Ucrânia, abriu-se um dos mais  sinistros e brutais capítulos do conflito: 180 mil ucranianos foram executados pelas SS, e milhares deportados para campos de trabalhos forçados.

Kiev, a capital da Ucrânia, foi palco da talvez maior rendição em massa de todos os tempos: 665 mil soldados soviéticos depuseram as armas, surpreendidos pela  rapidez com que os exércitos alemães em alguns meses varreram as forças da URSS nos campos de batalha do Leste.

Cercada, invadida e esmagada pelo invasor, a capital ucraniana era a sede do Dínamo, talvez o melhor time de futebol da Europa antes da guerra. E foi com grande surpresa que, em um dia de 1942, Iosif Kordic, dono de uma fábrica local e fanático por esportes, reconheceu na rua Nikolai Trusevich, andando a esmo na cidade ocupada. 

Trusevich, que tinha sido goleiro do Dínamo Kiev antes da guerra, vestia trapos: capturado pelos alemães, acabara de ser libertado. Naquele momento, não tinha muitas alternativas: ou morreria de fome ou seria deportado para um campo de trabalhos forçados.

Mas Iosif Kordic tinha outros planos, e ofereceu comida e abrigo a Trusevich, pedindo-lhe em troca que formasse um time de futebol. Trusevich não queria, mas Kordic insistiu: os alemães tinham criado uma liga local, naturalmente na suposição de que seus times não teriam adversários. Quase não faziam segredo disso. 

Embora muitos dos antigos jogadores do Dínamo estivessem mortos ou fora do país, Trusevich acabou conseguindo pôr de pé um time – a que se chamou FC Start. A despeito do precário estado físico, da falta de condições e até de comida, o talento compensava. Logo o FC Start se impunha como um grande time. Começou a ganhar todas: venceu um conjunto de nacionalistas ucranianos,  representações húngaras e romenas.

Em pouco tempo, o FC Start personificava o espírito da Ucrânia. A população enchia o estádio, a moral e o orgulho nacionais subiam. Era, como diria o dramaturgo brasileiro Nélson Rodrigues muitos anos depois, a própria “pátria em chuteiras”. 

Os alemães logo se deram conta do problema de propaganda que se tinha criado. Tentaram manter os ucranianos longe dos estádios, aumentando exageradamente o preço dos ingressos, mas sem resultado: o povo ia assim mesmo.

Era preciso outra saída. Os ucranianos “tinham” que ser derrotados por um conjunto que representasse a “raça superior”. Um time combinado das Forças Armadas da Alemanha (a Wehrmacht) levou 9×1. Eles pediram revanche e o resultado foi ridículos 6×0

Não satisfeitos, os nazistas chamaram um time melhor qualificado e formado pelas Forças Armadas da Alemanha na Hungria. Não adiantou nada, 5×1 para o Start. Os húngaros pediram revanche e foi 3×2. Para os ucranianos, claro.

Enfim, os nazistas achavam que poderiam bater o Start. Mandou-se vir da Alemanha a nata do esporte da época: o time da Luftwaffe, o Flakelf, bem treinado e alimentado. Apesar de alguns ucranianos não terem nem chuteiras, o resultado que se viu em campo foi emocionante: FC Start 5 x 1 Flakelf.

Na próxima segunda-feira, o epílogo desta história trágica do futebol mundial

Créditos:


1 – Kiev em ruínas, 1942- Anisimov, Aleksandr (2002). Kiev and Kievans. Kurch. ISBN 9669612012.

2 – FC Start perfilado para jogo contra o Exército da Wehrmacht (1942) – autor desconhecido – Museu do Dínamo Kiev (reprodução)

3 – Nikolai Trusevich, goleiro, mentor e capitão do FC Start – Domínio público ucraniano

FC Start: o time que venceu o nazismo