Depois de dois dias contando histórias de campeonatos de pontos corridos na Alemanha, Argentina e Itália, todos decididos no último jogo, em momentos dramáticos, vamos a uma “final” de pontos corridos. Quando a última rodada reúne justamente os candidatos ao título, algo bastante raro.

Em 1989, os clubes ingleses seguiam suspensos pela UEFA por causa da Tragédia de Heysel e não podiam disputar competições européias. Sendo assim, as Copas e o Campeonato Nacional eram disputados com força máxima, a única competição que eles poderiam disputar.

Dia 1° de janeiro de 1989 o Arsenal estava inacreditáveis 17 pontos na frente do Liverpool. O campeonato teve atrasos por causa da Tragédia de Hillsborough, em Sheffield, pela Copa da Inglaterra quando 96 torcedores morreram esmagados por superlotação no jogo Liverpool x Nottingham Forest.

Michael Thomas marcando nos acréscimos e decidindo o Inglês de 88-89
Com jogos atrasados em todas as competições, a rodada final marcava Liverpool x Arsenal. Na fila do título nacional há longos 18 anos, o time de Londres foi tropeçando e jogou fora toda a vantagem. Faltando 3 rodadas para o Arsenal e 4 para o Liverpool, tudo mudou. Nas últimas partidas, o Arsenal perdeu em casa para o Derby County e empatou também em casa com o fraco Wimbledon, enquanto o Liverpool seguia sua reação impressionante. Na penúltima rodada, um 5×1 dos “Reds” no West Ham significava que o Arsenal teria de vencer por DOIS gols de diferença em Anfield para ser campeão no critério do número de gols marcados.

O Liverpool, que buscava uma inédita dobradinha consecutiva (campeão nacional e da Copa da Inglaterra em sequência) não perdia por dois gols de diferença em casa há longínquos 4 anos. Isto sem contar um jejum de 15 jogos sem vitórias do Arsenal na casa do rival. O pessimismo era profundo, o título era favas contadas em favor do Liverpool, campeão 11 vezes nos últimos 23 anos. “Nem rezando adianta, Arsenal” ( “You Haven’t Got A Prayer, Arsenal”), estampou o Daily Mirror no dia seguinte a esta rodada.

Então no dia 26 de maio de 1989, Liverpool e Arsenal decidiram o Campeonato Inglês e o país parou. O Arsenal foi o jogo inteiro superior, lutando com bravura pela vitória apesar da nítida inferioridade técnica. No final do primeiro tempo, Steve Bould quase fez 1×0 para os visitantes. Isto não tardaria no início da etapa complementar, um belo gol de cabeça de Alan Smith aos sete minutos de jogo. Liverpool 0x1 Arsenal, e metade do milagre já havia acontecido.

A partir daí o jogo se tornou nervoso, com o Liverpool muito recuado e o Arsenal tentando atabalhoadamente o gol do título. Aos 35 do segundo tempo, o voluntarioso volante Michael Thomas perdeu um gol feito dentro da área, chutando em cima do goleiro Bruce Grobelaar. A partir daí, o Arsenal desanimou e o experiente Liverpool, simplesmente tetracampeão europeu em 10 anos, era senhor da partida. Entretanto, o jogo não havia terminado…

Nos acréscimos, a bola está no ataque do Liverpool e sobra para o goleiro do Arsenal. John Lukic passa para Lee Dixon que dá um balão. Alan Smith domina e passa de primeira para Michael Thomas, que avança pelo meio-campo. Ele supera a marcação de Steve Nicol e toca na saída de Grobbelaar.

Gol! E do título! Cenas de loucura na tribuna visitante. Clima de desespero entre os torcedores do Liverpool!

Michael Thomas faz o gol do título -

Michael Thomas faz o gol do título –

Fim de jogo, Arsenal campeão!
Vejam um compacto de uma das mais memoráveis partidas da história do futebol da Inglaterra. A narração é de Brian Moore e os comentários do ex-jogador David Pleat. A frase de Moore no lance do gol do título ficou imortalizada: “Thomas charging through the midfield, Thomas. It’s up for grabs now, THOMASSS!!!” (Tradução livre: “Thomas avança pelo meio-campo, Thomas. É tudo ou nada agora! THOMASSS“)”:

É amigo… Isto que é emoção!

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