O praticamente confirmado retorno do astro Ronaldinho ao Grêmio impactou violentamente o noticiário esportivo do futebol brasileiro, em especial aqui no Rio Grande do Sul. Com a confirmação a ser feita nesta quarta-feira à tarde, o maior jogador já formado no Olímpico, único gaúcho eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA (2004 e 2005), retorna ao Tricolor, time que lhe formou, projetou e depois abandonou em 2001 para jogar no Paris Saint-Germain em uma enorme polêmica.

Aliás, um adendo que pouca gente faz. Em 2000, enquanto Zinho e Paulo Nunes ganhavam 200 mil reais, Astrada 120 mil dólares e Amato 100 mil dólares, Ronaldinho ganhava 45 mil reais mesmo sendo o maior destaque absoluto do time desde o ano anterior. O Grêmio, com a arrogante e incompetente postura do então presidente José Alberto Guerreiro, ainda misturava especulação com proposta oficial. Aquele patético fax do Leeds United, jamais confirmado pelo clube inglês, virou peça de divulgação e exibição de mídia. De concreto mesmo, uma proposta de 25 milhões de dólares do Real Madrid que foi recusada.

Era evidente que isto podia dar errado no ano seguinte. Minhas fontes dentro do Olímpico naquela época eram muito fortes, e além disto tenho mais de um relato sobre a posição pessoal de Guerreiro sobre a Lei Pelé, que entraria em vigor na temporada seguinte. Ele simplesmente não dava bola e achava que um canetaço da CBF reverteria a decisão. Obviamente sabemos que ele errou, e feio.

E quais são os impactos dentro do cenário esportivo gaúcho? São análises que devem ser feitas sob a ótica esportiva, midiática e ainda do ponto de vista marketing/comercial. Na esportiva, os aspectos técnicos desta contratação no Grêmio, e até no rival Internacional. Na midiática, o impacto nos veículos de comunicação e na marqueteira/comercial as implicações econômicas e de publicidade deste retorno.

Ronaldinho nos tempos de Grêmio - Paulo Franken, grupo RBS

ESPORTIVA

Antes de mais nada, Ronaldinho é diferenciado. Ou melhor, foi extra-classe entre 1999 e 2006. Porém nos últimos anos de Barcelona e Milan tem deixado a desejar, especialmente pelo investimento destes times, salário e expectativa que pesava sobre si. O excesso de vida noturna e peso e a notória deficiência de treinamentos causaram profundo desgaste em seu desempenho nos gramados.

No Brasil, entretanto, ele virá e fará a diferença. Evidentemente sem chegar aos níveis do passado, em especial no ano de 2005, mas certamente será uma das estrelas do futebol brasileiro. O técnico Renato Portaluppi certamente mudará o esquema de jogo, provavelmente sobrando para André Lima. O time será ainda mais ofensivo do que em 2010, provavelmente porque Lúcio e Gabriel serão laterais ofensivos. Resta saber o resultado disto, pois normalmente a Libertadores é implacável com times ‘faceiros‘.

Existe um outro aspecto que, até agora, ninguém abordou: pela primeira vez desde 2005, o Internacional não será o time mais visado pela mídia gaúcha e brasileira no estado. Desde as contratações de Tinga, Jorge Wágner, Índio e Iarley naquela temporada, sempre foi o Colorado o time com maior folha de pagamento, estrelas e principalmente: cobrança.

Desta vez, e até alinhada com a política de enxugamento de custos do time profissional, categorias de base e gestão do clube que está sendo implementada pelo novo presidente Giovanni Luigi, o Inter ficará um pouco alijado da mídia, na sombra do rival. Isto pode ser positivo para diminuir a pressão sobre um elenco ainda abalado pela decepção no Mundial.

Seguindo nesta linha, a pressão será muito forte sobre o Grêmio. Tropeços não serão tolerados e a imprensa seguirá implacável com resultados ruins. Eventuais excessos nas noitadas, especialmente na provinciana Porto Alegre, serão fartamente documentados por torcedores e isto pode virar o fio em um médio prazo.

MIDIÁTICA

Neste ponto não existe nenhum aspecto negativo. O Grêmio ficará nas manchetes do mundo todo, em especial dos italianos e espanhóis. A cobertura de imprensa será grande em todos os jogos e o público certamente irá aumentar ainda mais.

Nos últimos anos, as grandes contratações não ocorreram no Olímpico e sim no rival Beira-Rio. As vindas de Nilmar Andrés D’Alessandro em especial foram de forte impacto no cenário futebolístico gaúcho.

Porém a chegada de Ronaldinho, em termos de exposição de mídia, é incomparável com estes dois, por tudo que ele já representou no futebol mundial. Se ele irá resolver em campo e brilhar mais que os dois citados, não podemos saber agora.

Mas que ele é um atleta de indiscutível prestígio mundial (ainda que opaco nos últimos 4 anos), disto não tenho a mínima dúvida. O Grêmio será manchete internacional por muito tempo, seja no sucesso, seja no fracasso.

MARKETING/COMERCIAL

Há um bom tempo comento com amigos gremistas e colorados que nos últimos anos, a torcida do Inter conseguiu cultivar seus ídolos. Fora Alexandre Pato, todos os demais ‘queridinhos’ da torcida colorada jogaram mais de 100 partidas e dois anos no clube e conquistaram títulos relevantes.

No Grêmio, os times de seis meses de Paulo Odone e de um ano de Duda Kroeff impediram isto, times virados do avesso ao final de cada período com alta rotatividade de titulares. Jogadores talentosos jogaram menos de 2 anos como Lucas e Anderson. Ou menos ainda como Carlos Eduardo e Douglas Costa. Isto sem contar bizarrices como o inaceitável endeusamento de pernas-de-pau como Sandro Goiano.

Isto evitou uma ligação mais forte com os torcedores, diminuindo a aquisição de produtos vinculados a estes atletas. Somente com o retorno do ídolo Renato Portaluppi, agora como treinador, este fluxo começou a virar, pois a identificação dos torcedores com o ídolo do passado é muito forte.

Não temos informações precisas do contrato de Ronaldinho com o Grêmio. Certamente a decisão do Paulo Odone de ‘esparramar’ pelo mundo aumentou o valor total da transação. O Tricolor, que começava a ficar em uma situação financeira bem mais tranquila, pode novamente “apertar o cinto”. Isto deve ser pesado no clube e certamente está na pauta diária. Se ganhar a Libertadores, objetivo máximo de 2011, tudo terá sido pago.

O Inter (e eu estava no clube na época) fez isto em 2006: gastou o que tinha e o que não tinha buscando o título continental. Deu certo naquela vez. Se desse errado, um enorme desmanche teria ocorrido no segundo semestre e principalmente no ano seguinte.

O retorno publicitário faz parte do retorno de Ronaldinho. Boa parte dos seus rendimentos virá de anúncios publicitários, produtos e negociações exclusivas envolvendo sua imagem. Os valores para anúncios envolvendo o Grêmio irão aumentar consideravelmente de valor e isto irá gerar dividendos em sua maioria para o próprio atleta. Mas ainda assim, algo irá sobrar para o clube da Azenha.

CONCLUSÃO

Resumindo: a cartada dada pela diretoria gremista foi ousada. Se tu não arriscares na vida, não obtém grandes resultados. Isto foi feito.

Hoje começa um novo período para o Grêmio. No final do ano já teremos 25% do caminho trilhado até 2014 e veremos como tudo terminou.

Seja bem-vindo, Ronaldinho.