A trágica morte de Gustavo Sondermann, aos 29 anos em uma corrida de Copa Montana ontem em Interlagos explodiu uma revolta que já ocorria há algum tempo no meio do automobilismo brasileiro. O que era silencioso ficou evidente e, acima de tudo, cristalino nos comentários de pilotos e jornalistas brasileiros especializados no assunto.

É evidente que o acidente é inerente ao esporte automotor, e que uma batida especificamente em “T”, ou seja, quando um piloto fica atravessado na pista e recebe um choque de outro carro em alta velocidade, é a mais mortífera de todas. Exatamente como a de ontem com Sonderman, e igualzinha à morte de Rafael Sperafico em 2007 na mesma curva.

O problema é que não foi o primeiro e nem será o último acidente na Curva do Café e não se vê definições da Confederação Brasileira de Automobilismo, uma entidade encastelada em si só (CBF), muito longe do esporte o qual se diz representante (na FIA, inclusive) e, principalmente, dos anseios da comunidade esportiva.

Isto é um reflexo do descaso no qual a entidade está mergulhado desde os nefastos anos sob comando de Paulo Scaglione, entre 2001 e 2009. A atual gestão de Cleyton Pinheiro recebe igualmente as mesmas críticas. Hoje um piloto de Stock Car paga 40 mil reais só para se inscrever na categoria máxima do automobilismo brasileiro, e o mesmo ocorre em todas as demais divisões e níveis.

Não existem critérios técnicos e o interesse financeiro impera absoluto em todas as categorias, cmo disse o jornalista Victor Martins em um longo desabafo “A Hora da Mudança. Ou seja, com dinheiro qualquer um pode correr em qualquer categoria. Para piorar, nada deste dinheiro vai para os esportes de base ou condições de segurança das pistas, como a ultrapassada Tarumã.

Sobre Interlagos, palco da Fórmula-1 desde 1990, o primeiro comunicado do presidente Cleyton Pinheiro foi colocar a culpa na FIA. Duvidam? Então leiam por vocês mesmos. Enquanto isto, ano passado o vice-presidente da CBA, Antonio dos Santos Neto, foi preso em setembro por fraude na Secretaria de Saúde do Pará. O ex-presidente da Federação Paraense (que não faz nada pelo esporte), segue no site oficial da entidade.

Hoje, o jornalista e acima de tudo amante do automobilismo Galvão Bueno fez uma “Carta Aberta” pedindo providências ali. Bruno Senna, Rubens Barrichello e Felipe Massa (amigo de infância de Sondermann) mostraram irritação e tristeza com o acidente que vitimou Sondermann.

Todos estes acidentes terem ocorrido na “Curva do Café” em Interlagos parecem ser sintomáticos. Falta coragem de mudar aquela pista, recuando as arquibancadas e aumentando a área de escape, ou simplesmente colocando uma chincana ali. Os pilotos que atuam no Brasil se mostraram profundamente tristes e revoltados, acusando a CBA de absoluto descaso com o esporte no país.

Felipe Maluhy, da Stock Car,  informou que desde 2008, após o acidente de Sperafico, se cogitam mudanças. A mais simples é a criação da chincana móvel utilizada em provas de motociclismo, e a outra é o já especificado recuo da arquibancada. Na primeira, os pilotos reclamaram e na segunda as questões financeiras rechaçaram.

Sérgio Jimenez, da veloz categoria GT3, chutou o balde: “Vão esperar quantos pilotos se fuderem pra fazer área de escape ali? Pagamos impostos pra quê? O templo do automobilismo brasileiro, custa afastar o muro? Custa quanto? É muito difícil ou vamos esperar morrer mais um piloto?”

Se vocês acham que pilotos não fazem nada pela categoria, vejam o que Émerson Fittipaldi e Jackie Stewart fizeram pela seguranças nas pistas do mundo inteiro na inesquecível série “Segurança nas Pistas”, do Almanaque Esportivo

VEJA TAMBÉM – OUTROS ACIDENTES NA CURVA DO CAFÉ

Rafael Sperafico morreu em 2007 na Stock Car:

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Este ano, o fotógrafo João Lisboa, de 52 anos, morreu ali em um ‘track day’, com a pista aberta ao grande público. Ali também ocorreu o gravíssimo acidente de 2003 na Fórmula-1, envolvendo Mark Webber, Fernando Alonso e Giancarlo Fisichella.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=0Ts07b7uo7E&w=480&h=390]
Mais um acidente em 1999, quando o francês Stephane Sarrazin bateu e ricocheteou para dentro da pista no GP Brasil de F-1, mas felizmente ninguém o acertou:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=kvTdm1YmT1o&w=420&h=315]


SÉRIE COMPLETA – SEGURANÇA NA FÓRMULA-1


Há algo de muito podre no Reino da Confederação Brasileira de Automobilismo.

E não é de agora.

Com informações do site Grande Prêmio – http://www.grandepremio.com.br