Já externei minha posição sobre políticas de futebol, organização de times de categorias de base, então divulgo o texto abaixo que sintetiza o que penso, escrito pelo técnico Fabio Cunha e que eu divulgo aqui.

“Mudança de filosofia no futebol de base

por Fabio Cunha

O exemplo do Barcelona pode nos ensinar uma lição. Quando Guardiola, técnico da equipe catalã, disse em entrevista coletiva após a final do Mundial Interclubes: “… o que tentamos é passar a bola a um companheiro o quanto antes possível… o que o Brasil fazia, segundo o que contam meus pais e meus avós, desde sempre.”, nos transmite um misto de orgulho e vergonha.


Se os espanhóis, que unanimemente jogam o melhor e o mais bonito futebol apresentado por uma equipe no mundo, mostram um jogo de toque de bola, passes rápidos e jogadas bonitas, por que nenhuma equipe brasileira ou a Seleção conseguem repetir essa forma de jogar?
A desculpa de que o Barcelona é um clube rico e, assim, contrata grandes jogadores, aqui não serve, pois 8 ou 9 jogadores do time titular foram formados em sua categoria de base.


Alguns usarão como desculpa que a equipe catalã joga há muitos anos junta e então os jogadores tem um bom entrosamento. Isso é um aspecto que ajuda, com certeza, mas que sozinho não justifica esse resultado. A grande explicação é a formação de base.


O clube espanhol possui uma filosofia clara e bem definida para a formação dos seus atletas. No lado técnico a preocupação é formar um atleta com qualidade técnica, com os fundamentos bem desenvolvidos e afirmados. No aspecto tático o objetivo é montar equipes coesas que mantém a posse de bola, que troquem passes em velocidade e, principalmente, jogadores solidários e comprometidos com o coletivo.


Não quero aqui valorizar o Barcelona, mas sim a filosofia adotada, uma filosofia que se preocupa com a formação completa do jovem atleta e não com o resultado imediato.O mais incrível é que o trabalho bem feito, bem planejado, que respeita o desenvolvimento maturacional, que respeita as características de cada faixa etária, acaba trazendo, também, resultados esportivos a curto e médio prazo.


Devemos mudar a filosofia da formação de base no Brasil. Os clubes devem primeiro colocar dirigentes capacitados que não pressionem jogadores e técnicos por resultados esportivos. Em segundo lugar, devem contratar técnicos e demais membros da comissão técnica com qualificação profissional, que entendam de crescimento, maturação e desenvolvimento motor e que trabalhem os garotos pensando no futuro como atletas e cidadãos. Em terceiro lugar, o clube deve investir na infraestrutura e nas condições para que os treinamentos ocorram de forma científica e profissional, pois a estrutura é fundamental.


Destaco que desses pontos o principal é a qualificação dos profissionais que atuam no dia a dia com os jovens atletas. Necessitamos de técnicos mais qualificados nas categorias de base. Quando o futebol brasileiro se atentar para esses pontos e para essa realidade, voltaremos a revelar craques em quantidade.

Não podemos mais viver de um ou outro grande jogador que surja mais por sorte do que por trabalho bem feito. Com isso, ganham os clubes, a Seleção, os torcedores, os atletas e o futebol brasileiro. Poderemos assim ver não apenas um Barcelona, mas sim inúmeros times apresentando um futebol vistoso e competitivo como vimos na manhã daquele 18 de dezembro de 2011 durante a final do Mundial Interclubes.

Prof. Fabio Cunha
Twitter: @tec_FabioCunha
CREF: 003535-G/SP
Livro: Técnico de futebol – a arte de comandar: http://www.fcunha.com.br/livro_tecnicofutebol.htm