Assisti as finais da Copa FGF Sub-17 e a primeira partida das finais do Estadual gaúcho de juniores. Todas encerradas com vitórias do Internacional, duas delas com placar elástico. Saltaram aos olhos a disparidade técnica entre os dois times, e as redes sociais foram inundadas de fortes críticas aos resultados gremistas.
Sobretudo no time de juniores, a diferença foi oceânica, mas cabe aqui algumas ressalvas: o Inter tinha dois jogadores do profissional, Fred e Maurides. O Grêmio perdeu o técnico Jorge Parraga para os profissionais do Barueri há cerca de 20 dias e estava de treinador interino. Ocorreu ainda um erro claro de arbitragem contra o Tricolor. Porém, a unânime opinião foi de que o Inter foi muito superior ao Grêmio em todos os setores.

Juniores do Grêmio- Foto: Divulgação Grêmio.net

Cabe o questionamento: o que está ocorrendo na Azenha? Seria uma involução? Não tomemos opiniões precipitadas.
O sinal que os dois clubes estão em estágios diferentes é evidente. Desde 2005, faço um levantamento de títulos das categorias de base da Dupla Gre-Nal, incluindo torneios relevantes no exterior. São 30 títulos do Grêmio (20 estaduais) e 69 títulos do Internacional (40 estaduais). É muito, especialmente porque os dois clubes hoje tem estruturas semelhantes para seus garotos.
Meu diagnóstico sobre isto pode ser resumido em um aspecto: falta de continuidade política no Grêmio. Desde 1999, nenhum grupo político gremista ficou mais do que 4 anos. E o tempo é indispensável no planejamento de categorias de base.
Naquele tempo, o Tricolor tinha uma estrutura de categorias de base invejada em todo o país, enquanto o Internacional estava atirado no lixo. Em 2000, as categorias de base coloradas dormiam em alojamentos lastimáveis, mais parecidos com cortiços dentro do Beira-Rio. E olha que isto era um avanço: em 1996, o histórico presidente Fernando Carvalho assumiu como dirigente da base após ver 3 times do Inter (em um deles, seu filho jogava) usarem o mesmo uniforme em Gre-Nais de base no mesmo dia, enquanto o rival utilizava três jogos completos de fardamento.
E o que mudou no Beira-Rio desde então? A partir de 2002, o mesmo movimento político gerencia o Internacional. Implantou-se uma política de continuidade nas categorias de base, e profissionais de extrema qualidade permanecem desde então. É o nítido caso do Coordenador-Técnico Ademir Calovi, enquanto outros funcionários da área, como Jorge Macedo só saíram por propostas vantajosas financeiramente (e este já voltou!). Os treinadores seguem uma nítida hierarquia: vão subindo de categoria caso mostrem bons resultados. Nomes como Osmar Loss, Marcelo Estigarribia e André Jardine trilharam um longo caminho até os juniores.
Alguns, como Estigarribia, não foram bem nos juniores e deixaram o clube, mas ainda assim trilharam um caminho de sucesso. O ex-goleiro Clemer, uma lenda do clube, é uma exceção: entrou direto nos juvenis. Mas um ótimo trabalho de 18 meses gerou 4 títulos em 5 competições. Clemer tem o elenco na mão (aliás, uma ótima geração) e está sendo observado pela diretoria do clube.
Outro aspecto a ser ressaltado é a respeito da impecável rede de olheiros colorada. Muitos jogadores chegaram ao clube ainda na base, mas próximos do time profissional, como o volante Sandro e o promissor meia Fred. Sobretudo em MG e PR, os colorados possuem um histórico de ótimas contratações.
Enquanto isto, neste período o Grêmio viu suas categorias de base serem vergonhosamente sucateadas na gestão José Alberto Guerreiro e sofreu com a penúria financeira com Flávio Obino, chegando ao fundo do poço.
A partir de 2005, surgiu o trabalho de Rodrigo Caetano, um ex-meia com carreira precocemente abreviada e que estudou para se tornar um executivo de futebol. Começou na base do Grêmio e, com forte apoio do presidente Paulo Odone, reformulou das cinzas para um nível bastante aceitável, sobretudo em infraestrutura e organização. Seu trabalho foi tão bom que rapidamente ele subiu ao grupo profissional do Grêmio, com resultados igualmente qualificados.
Mas este trabalho foi abreviado por uma reviravolta política: depois de 4 anos, o grupo de Paulo Odone acabou derrotado por Duda Kroeff, apoiado pelo lendário ex-presidente Fábio Koff. Imediatamente, Rodrigo Caetano deixou o Grêmio. Alguns meses depois, chegou o técnico Paulo Autuori com poderes totais na base. Dois nomes externos ao clube, mas das relações do treinador assumiram o comando do futebol de base: Edson Aguiar e Mauro Rocha. O ótimo trabalho do diretor Paulo Deitos foi descartado e os resultados foram catastróficos. sobretudo em 2010. Pessoas com décadas de trabalho ao clube, e bons relacionamentos com os empresários foram afastadas, e bons valores acabaram nos rivais.
Em 2011, adivinhem o que ocorreu? Mais uma inversão política. Desta vez, corretamente o clube abandonou todo o péssimo trabalho do “Legado Autuori” e começou o processo de reconstrução, com novos nomes e retornos de ex-profissionais. Um trabalho que começa a dar frutos. Só que os percalços prosseguem: causou surpresa esta semana a escolha de Marcelo Mabília como técnico dos juniores, já que ele tem uma relação muito próxima com o empresário Jorge Machado. E este é amigo do atual gerente de futebol Paulo Pelaipe, com diversos jogadores no elenco profissional.
Isto aliado à imprevisível eleição presidencial do Grêmio em setembro pode causar uma nova descontinuidade na política de futebol. É improvável não ocorrer mudanças radicais nas categorias de base caso o grupo do presidente Fábio Koff assuma o comando do Tricolor. Haverá um rompimento das idéias.
O Grêmio precisa de um pacto buscando um planejamento estratégico a longo prazo nas categorias de base.
Isto deveria envolver todos os setores do clube, tal qual ocorreu na construção da Arena.
Um trabalho costurado politicamente, mas envolvendo profissionais realmente especializados no assunto.
Porém… Haverá humildade?
Ou a ‘fogueira de vaidades’ do Grêmio irá derrubar os planos de um futuro alvissareiro na base gremista?
OBS: Agradecimentos aos textos de Dassler Marques no Olheiros.Net
LEITURA COMPLEMENTAR
Decadência na Azenha, por Dassler Marques – http://olheiros.net/artigo/ler/2290
O fim da Era Autuori na base, por Dassler Marques – http://www.olheiros.net/artigo/ler/2940