Trate um ser humano como um animal e ele irá se portar como um. Trate este mesmo “homo sapiens” com dignidade que seu comportamento será diferenciado. Esta deveria ser a prática nos estádios de futebol, mas nos últimos 15 anos assistimos uma involução na sociedade gaúcha.

Assistindo a vídeos de clássicos dos anos 90 vejo o quanto as torcidas de Porto Alegre, os dirigentes da dupla Gre-Nal e a Brigada Militar involuiu no quesito civilidade. Na época víamos 13, 15 mil torcedores da torcida adversária nos dois estádios, Beira-Rio e Olímpico. Duvidam? Então assistam o vídeo abaixo:

Claro que nem tudo era perfeito, brigas ocorriam especialmente longe dos estádios (no Trensurb, por exemplo). Também é bem verdade que hoje, com o expressivo número de sócios, este volume de visitantes não poderia se repetir. Mas, mesmo com estádios em perfeitas condições (como por exemplo no Gre-Nal de 2009 pelo Campeonato Brasileiro), o contigente de visitantes já havia caído para 2.800 torcedores, muito longe do limite máximo de 10% previstos no Regulamento Geral de Competições (algo entre 5 a 6 mil torcedores).

Incidentes no Gre-Nal do Brasileirão em 2008 – Foto: Valdir Friolin, RBS

No dia 7 de outubro de 2008, meu amigo Marcelo Barbosa da Rosa escreveu para o Paulo Sant’Ana e teve seu e-mail publicado. Seus argumentos estão disponíveis aqui e são muito semelhantes aos meus. Violência aumentou com redução da torcida?

Não é coincidência o fato dos grandes incidentes recentes no Beira-Rio e Olímpico terem começado com a redução de espaços. Nos Gre-Nais de 2004 pela Sul-Americana tivemos uma invasão da social do Beira-Rio, com poucos torcedores visitantes no estádio. O triste incidente do incêndio dos banheiros químicos em 2006 também tinha pouca torcida.

Se tu tem 300 marginais que irão tumultuar em quaisquer condições, eles serão 30% de um contingente de 1.000. Mas serão apenas 5% de 6 mil torcedores… Pensem nisto…

Outra questão são os tapumes. De acordo com a sempre eficiente (não) Polícia Militar o ideal é que os torcedores sejam colocados em currais de 500m de cumprimentos. Nem bois indo para o matadouro passam por tamanho constrangimento. Isto acirra o comportamento dos torcedores, especialmente no Beira-Rio. Considero aquilo uma afronta à civilidade dos torcedores.

A situação de torcida única é ainda mais ridícula. Além de ser uma prova de incompetência, como vimos na Polícia Mineira no último domingo (dúvidas? Olhem a coluna do comentarista Mauro Cézar Pereira, da ESPN, sobre os incidentes de Cruzeiro e Atlético-MG), é uma degeneração do conceito básico do esporte, que engloba torcedores nos estádios. E não adianta nada.

Evidentemente que sabemos de fatos lamentáveis ocorridos em clássicos Gre-Nais, como o incêndio dos banheiros químicos no Beira-Rio em 2006. Entretanto isto não pode ser desculpa para a omissão de dirigentes, autoridades. Porém para isto, deve-ser cumprido o Estatuto do Torcedor, focando em penalidade alternativas, punições radicais aos desordeiros e, em casos mais extremos, o encaminhamento à área judicial.

Com a Copa de 2014, os estádios brasileiros chegarão a um patamar nunca vistos anteriormente. Requinte e conforto estarão à disposição dos torcedores. Esperamos que a força de vontade dos dirigentes e das autoridades públicas também se renove com este novo ambiente.

Acima de tudo, cabe o discernimento de buscar alternativas mais civilizadas. O cerne do Relatório Taylor, o documento que levou a Inglaterra da mais profunda depressão futebolística para o topo das Ligas Nacionais, é: trate a todos como deseja ser tratado.

Foi assim que a Inglaterra se tornou o que é.

Queremos isto?