Escrevi um longo texto opinativo sobre os problemas do Internacional nos últimos dois anos. Ele está hospedado em outro site.

Convido os leitores fiéis a darem uma lida: Internacional 2006 a 2012: De Yokohama ao Olímpico

A defesa de hoje é a mesma do fiasco contra o Mazembe. Foto: Jefferson Bernardes – Vipcomm

Há alguns anos, o ex-presidente Fernando Carvalho escreveu um livro intitulado “De Belém a Yokohama: Como o Inter conquistou o Mundo”. Leiam, é uma leitura obrigatória do case de sucesso que levou o clube até seu Centenário no auge de sua história. Pois creio que está na hora de uma segunda versão, contando tudo que ocorreu desde o título mundial e que pode terminar na última rodada deste Campeonato Brasileiro, no estádio do arquirrival. No zênite da desesperança.

Chegou o momento de mudar. Que outros errem, por suas cabeças. Que acertem. Mas que façam diferente. Desde o 2º semestre de 2009 ocorre um acentuado decréscimo técnico dentro do time colorado. Da formidável equipe do 1º semestre do Centenário até hoje, é notório que o futebol vermelho involuiu. Ainda com a base formada de 2009, o Inter levantou, aos trancos e barrancos, a Libertadores em 2010.

Mas não soube a hora de mudar, trocar a fotografia, renovar o clube. A idéia de “manter uma base de um ano para o outro”, desandou quando alguns jogadores se tornaram intocáveis no elenco colorado. Hoje quem fica são os jogadores que não dão mais resposta, mas que recebem renovações de contrato, na melhor das hipóteses, “inexplicáveis”. É necessário saber a hora de mudar os jogadores.

A falta de coerência no perfil dos treinadores é outra coisa que impressiona: Roth, Falcão, Dorival, Fernandão só possuem em comum as diferenças na maneira de pensar. A existência de dirigentes neófitos no Departamento de Futebol, ou que não agregam valores mesmo há anos nesta posição, é consequência da não-formação de dirigentes e do isolamento político da diretoria. O orçamento de futebol do Internacional é muito alto para ser colocado em mãos tão inexperientes no assunto, com um conhecimento raso sobre o esporte-motor do clube.

A escolha de dois ídolos do clube como treinadores se mostrou desastrada: sem apoio de um vice-de-futebol experiente, Falcão e Fernandão rapidamente desandaram. Clemer e André Doring estavam há mais tempo trabalhando no dia-a-dia do futebol, são identificados com o clube. Deveriam ter sido as primeiras opções, mas o “bruxismo” prevaleceu.

Com um Fernando Carvalho ou um Vittorio Piffero ao lado, pessoas mais experientes, talvez fosse diferente. Colocar Falcão no meio da Libertadores (2011) ou Fernandão no Brasileirão (2012) se mostrou um desastre. Um dirigente disse que Fernandão era a pessoa certa após conversar e saber que ele tinha “boas idéias”. Outro sequer sabia a posição para a qual determinado jogador havia sido contratado. Um terceiro virou Vice-Presidente com uma única contratação em 2 anos de futebol no currículo: Kléber Pereira.

O isolamento político e posturas pessoais de confronto afastaram pessoas competentes. Tudo foi feito sozinho, e o resultado foi desastroso. Se o Inter não houvesse jogadores de tanta qualidade como Oscar, D’Alessandro, Damião, etc, poderíamos ter tido trágicas consequências.

Dentro das quatro linhas, o time é montado sempre com um excesso de preocupação defensiva, seja com 3 volantes (quase uma norma no Beira-Rio, como o “tiki-taka” do Barcelona ou o “futebol direto” do Stoke City), seja com apenas um atacante (desde 2010 assim). Contra todos os ideais da torcida colorada. Não há equilíbrio, jogadores com perfis complementares no elenco. Pouca ou nenhuma avaliação técnica na contratação de jogadores, comparando os mesmos com valores das categorias de base.

No aspecto interpessoal, os problemas são claros: os jogadores mandam. O “dono do vestiário” é o maior exemplo. Em fase deplorável, Bolívar renovou por 30 meses em maio de 2011, com proposta do Santos. Inexplicável. Depois, a torcida ‘deu um jeito’ de tirá-lo do time, mas ele voltou sem nenhum motivo, explicação racional, coerência. Outros atletas em fase técnica deplorável não são barrados, como Nei.

Jogadores que servem apenas para grupo (Élton) ou nem isto (Josimar) possuem um inexplicável apreço da diretoria. Para piorar, as viciadas relações interpessoais trazem jogadores como Édson Ratinho, que em 3 jogos virou reserva do volante improvisado, e dispensam laterais como Diogo e Cláudio Winck (este das Seleções Brasileira de base). Qual é a motivação que os jovens possuem, se eles serão reservas no contra-cheque? Está tudo errado neste quesito.

A derrota em Abu Dhabi foi construída no 2º semestre de 2010: jogadores em má-fase, esquema tático equivocado (4-2-3-1), reservas desprestigiados jogando mais que titulares intocáveis. Depois do fracasso, era de se esperar uma limpa, até em respeito aos dez mil colorados que invadiram os Emirados Árabes.

O que ocorreu? Rigorosamente nada e, em uma comédia bufa, o técnico Celso Roth renovou contrato. Prêmio por ter deixado Renan, Wílson Matias, Tinga (como meia), Rafael Sóbis e Alecsandro como titulares, punindo Pato Abbondanzieri, Giuliano, Oscar e Leandro Damião. Ontem, ao perder para o Coritiba, os quatro defensores eram exatamente os mesmos do Mazembe e todos em péssima fase. É surreal.

Os salários extrapolaram quaisquer limites razoáveis: o Inter hoje gasta mais de um milhão de reais por mês com três zagueiros acima de 32 anos. Em 2013, a perspectiva é pior: todos os veteranos seguem com contratos em vigor (exceção de Kléber), o banco de reservas tem uma qualidade muito baixa. Do time campeão da Sul-Americana em 2008 e dos vice-campeonatos nacionais de 2009, hoje o Inter tem um elenco em escombros.

Até 2010, o clube investia o dinheiro da venda em jogadores com potencial de revenda no futuro. Isto não ocorre mais. Desde então, a política de vender jovens para contratar veteranos por passe livre tem custado um decréscimo de talento no elenco. Hoje o Internacional gasta mais de 7 milhões de reais em salários, com resultados medíocres. Ano passado, quase perdeu a vaga da Libertadores para Figueirense e Coritiba, times muito abaixo do seu patamar. Este ano, está há quatro pontos do Náutico. Náutico. Não há um planejamento focado no sucesso em determinada competição, e sim uma morosidade lancinante.

A preparação física é uma espécie de ‘case de insucesso’: Ao ser contratado em julho de 2008, o preparador-físico Fábio Mahseredjian prometeu o time voando em setembro, algo rigorosamente cumprido. As lesões musculares eram raras e o time corria em campo até o final. Porém em 2010 o preparador-físico da Seleção Brasileira foi rebaixado a auxiliar do profissional indicado pelo técnico Jorge Fossatti. Um ano depois, ocorreu o mesmo com Dorival Júnior. Em setembro de 2011, na primeira proposta concreta, Fábio foi para o Corinthians, aonde fez o time voar em campo, marcando pressão e ajudando o time a conquistar a Libertadores 2012. Cansou de ser rebaixado em prol de profissionais nitidamente inferiores ao seu trabalho.

O Inter sistematicamente remonta o time no meio do ano, mantendo o time de dezembro para janeiro. Invariavelmente, o Campeonato Brasileiro é desperdiçado assim. Treinadores com trabalho insuficiente, como Dorival Júnior ou simplesmente intragáveis como Celso Roth, não são demitidos nem em caso de fracasso claros e notórios. Sempre é necessário uma insurreição popular para que uma decisão seja tomada.

Os dirigentes esquecem que o time teve sucesso com a manutenção da base quando os atletas eram jovens, com fome de vitórias. Hoje estão velhos, consagrados, sem apetite por novas conquistas.

No único ano que o Brasileirão foi valorizado, um erro ao não-contratar um substituto para Nilmar (ou achar que Alecsandro seria este nome) custou o título nacional.

Mas isto é um erro de avaliação, não de planejamento. Acontece.

Os Colorados terão que ver o Grêmio conquistar um título relevante para perceberem que algo está muito errado e o clube precisa de mais capacidade de indignação? De motivação? De mudança?

Falta muita coragem no Beira-Rio para tomar decisões drásticas. O clube precisa mudar, recuperar fórmulas de sucesso, mas parar de insistir em modelos desgastados.

O Inter tem cometido erros capitais. Mais de uma vez.

Quase todos relacionados à soberba.

Pensem nisto.