Uma linda cena marcou a entrada do jogo  Everton 2×2 Newcastle, pelo encerramento 4° rodada do Campeonato Inglês. Uma menina, com camisa azul do Everton, entrou de braços dados com um garoto de camisa vermelha, do Liverpool, arquirrival da região de Merseyside.  Nas camisas de ambos, o número 9 + o número 6, sintetizando a mensagem: “Justiça para os 96“.

Depois de duas décadas acusados de terem causado uma tragédia nos gramados, as vítimas da maior tragédia do futebol europeu enfim foram inocentados de todas as acusações, dando paz para a família das quase cem vítimas fatais, e os 766 feridos daquela tarde de primavera de 1989… É esta história que queremos contar hoje.

Menina e Menino com a mensagem – Justiça para os 96 – Reprodução TV

Na última semana, o futebol inglês e a sociedade britânica enfim mostraram que a Justiça (a entidade, com letra maiúscula no nome) pode demorar. Talvez 23 anos. Ela também pode unir torcedores com uma rivalidade tão grande como Everton e Liverpool, tão diferentes entre si. Mas cientes de seu papel em busca de um esporte, de um país e de uma vida melhor. E que, se ela for incessantemente almejada, um dia será obtida.

O  Primeiro-Ministro britânico David Cameron divulgou os resultados de um relatório independente de mais de 396 páginas no qual o Governo assumiu a responsabilidade na tragédia de Sheffield, na qual 96 torcedores do Liverpool morreram no estádio Hillsborough, em um jogo da Copa da Inglaterra contra o Nottingham Forest pela temporada de 88/89.

As palavras do Primeiro-Ministro são claras: “Em nome do Governo, e consequentemente de toda a nação, eu profundamente peço desculpas por esta dupla injustiça não-corrigida por tanto tempo”.Cameron assim isentava de quaisquer culpa os torcedores, tese defendida desde o início pela Polícia do condado de York, e apoiada por uma infame capa do tablóide The Sun.

Segundo a tese policial, divulgada amplamente pelo jornal de maior circulação no país, a culpa do desastre foi da torcida: torcedores roubaram os mortos e moribundos, bêbados causaram o incidente e mijaram nos policiais, além de espancar os mesmos quando estes estavam fazendo respiração boca-a-boca.

Capa do The Sun em 1989 culpando a torcida e da semana passada pedindo desculpas

No dia 14 de abril de 1989, um estádio superlotado e uma inacreditável sequência de erros das autoridades do jogo e da polícia do condado de York causaram a maior tragédia da história do futebol europeu, uma das piores no futebol mundial. Foi o ápice de décadas de horrores nos estádios ingleses, misturando violência, maus-tratos, estádios decrépitos e uma estrutura em colapso.

A estupidez da ação policial naquele dia, que não abriu os portões do gramado e suspendeu o jogo. Quando uma grade foi derrubada, os policiais foram para cima dos torcedores com cachorros, batendo nos mesmos para “evitar uma invasão” enquanto pessoas lutavam por suas vidas. O goleiro Bruce Grobelaar foi um dos primeiros a perceber que estava tudo errado: “-Pessoas me diziam, esmagadas na grade: Bruce, me salva, estou sufocando. Pedi ajuda para uma policial, que disse que ia chamar seu chefe“.

Menos de 10 minutos e o jogo foi suspenso pelas autoridades. As grades foram abertas, mas só uma ambulância estava dentro do estádio. Do lado de fora, 42 ambulâncias chamadas emergencialmente esperavam porque a informação errada de que havia uma batalha campal no gramado estava sendo divulgada pelas autoridades.

O estudo do Painel Independente apontou as seguintes constatações (em inglês):

  • Os torcedores do Liverpool foram vítimas, não causadores do incidente.
  • Os torcedores, mortos ou feridos, não causaram a tragédia por estarem bêbados.
  • Os torcedores tinham ingressos.
  • A polícia de York alterou 164 documentos e relatórios oficiais para incriminar os torcedores.
  • O relatório original dizia que todas as vítimas morreram antes de 15h15min. Porém neste horário, mais de 41 vítimas estavam vivas.
  • Até 59 vítimas poderiam ter sido salvas se o socorro tivesse sido mais adequado, o jogo cancelado antes mesmo de começar.
  • A polícia foi responsável por não controlar a multidão.
  • A polícia foi responsável por não paralisar o jogo e atender as vítimas que estavam esmagadas e asfixiadas nas grades de proteção, a 1 metro do gramado.

Torcedores sufocados e asfixiados no estádio – Polícia nada fez

  • O estádio não estava de acordo para um jogo de tamanha importância, sua capacidade foi superestimada.
  • Havia ocorrido esmagamento naquele mesmo estádio um ano antes, também em um jogo contra o Liverpool.
  • Não havia um plano para desastre de grandes proporções implementado no estádio pelas autoridades.
  • A  Polícia de South Yorkshire e um membro importante da política local, Irvine Patnick, foram as fontes das matérias sensacionalistas do The Sun, então comandado pelo editor Kelvin MacKenzie.
  • Os policiais alteraram os registros no sistema nacional de identificação colocando referências a teores alcoólicos nos mortos, culpando uma suposta bebedeira.
  • Os policiais fizeram exames de sangue sem consentimento das vítimas fatais. Inclusive das crianças (50% dos mortos eram menores de idade, o mais jovem sendo um garoto de 10 anos, primo da lenda do Liverpool Steven Gerrard).
  • Não houve evidências de que os torcedores planejaram para chegarem atrasados (e forçarem as entradas), tampouco de que roubaram as vítimas.
  • Após as orquestradas matérias do “The Sun”, o Governo fez veladas críticas aos torcedores, assim como dirigentes da UEFA, incluindo seu presidente.
  • A Primeira Ministra Margaret Tatcher se omitiu de uma posição mais firme e deixou claro que um relatório independente culpando a polícia seria um “desastre para a credibilidade da instituição”. Está claro na nota de gabinete do Briefing de sua secretária particular
  • O Governo enviou os resultados para o Promotor-Geral que irá decidir se fará processos, além de autorizar as famílias a buscarem seus direitos na justiça.

O presidente do “Hillsborough Families Support Group” (ONG de apoio às vítimas da tragédia) Trevor Hicks (que perdeu as duas filhas adolescentes na tragédia), exigiu a renúncia de autoridades policiais ligadas à investigação original e ao encobrimento dos fatos. Também não aceitou as desculpas do ex-editor do The Sun, McKenzie. Aliás, expulsou os jornalistas do tablóide da coletiva.

Aliás, o jornal The Sun até hoje é boicotado em Liverpool e condado de Merseyside. O The Sun vendia 200 mil cópias diárias na época e hoje vende apenas 12 mil naquela região. De um total de 3.3 milhões ao dia. McKenzie, até semana passada, se recusava a pedir desculpas para as vítimas. O tablóide, que novamente pediu desculpas semana passada, já havia feito um “mea-culpa” em 2004.

A tragédia fez os ingleses mudarem a relação com o esporte. Por exigência do Governo, foi preparado um estudo através do Barão Taylor de Gosforth, denominado “Relatório Taylor“.

Tudo que você hoje vê no futebol inglês, de estádios confortáveis, torcedores comportados e um espetáculo para a família começou a partir da tragédia de Hillsborough, desta análise profunda no futebol inglês. Já contei esta história:

Peter Taylor, Barão de Gosforth e seu famoso Relatório Taylor – Culpando os responsáveis

Relatório Taylor: como mudar o futebol de um país

Enfim, se encerra o capítulo mais doloroso da história do Liverpool.

A civilidade venceu a violência. A morte.

A corrupção dos valores mais sagrados da humanidade.

Homenagens dos torcedores do Everton para a torcida do Liverpool

O menino com a camisa do Liverpool e a menina com a camisa do Everton só representavam um sentimento que uniu uma cidade em torno de um pensamento: “Podia ter sido conosco. Ocorreu com nossos amigos, nossos parentes”

JUSTIÇA PARA OS 96

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