Neste ano de 2012, o futebol brasileiro vive um limiar perigoso. Conceitos estão sendo invertidos, o que sempre foi certo está se tornando de uma tonalidade cinza. Perigosa. E inclusive com apoio das autoridades que regem a categoria em cenário nacional.

Por causa de um calendário imbecil, aliado a um péssimo desempenho, a Seleção Brasileira gera mais antipatia que apoio da população. Ao invés de celebrarmos a permanência de jogadores de alto quilate no país, lamentamos a cada rodada desfalques em seus times. A arbitragem nacional vive um de seus piores momentos, sem comando, critérios técnicos, planejamento a médio e longo prazo.

Se fosse só isto, ok, vá lá. Mas a situação está bem pior. Neste final de semana tivemos quatro lamentáveis incidentes envolvendo o direito do torcedor e a liberdade de expressão. Pessoas que sofreram agressões físicas e/ou morais por expressarem seu universal direito de discordar.

No primeiro, o árbitro gaúcho Leandro Vuaden atrasou em 16 minutos o jogo Náutico x Atlético-GO por causa de uma enorme faixa. Ela ousou afrontar as “OTORIDADES“, com a inaceitável frase: “Não irão nos derrubar no apito“. Um simples protesto contra erros consecutivos prejudicando o time pernambucano nas últimas partidas. O jogo só começou quando a faixa foi abaixada.

Como disse Ivana Albuquerque, a torcedora que levou a faixa: “Está na constituição que eu tenho direito de expressar minha opinião sobre qualquer coisa. Foi uma verdadeira estupidez do árbitro agir dessa forma“.

"Não vão nos derrubar no apito" - Faixa pretensamente ofensiva em Recife - Arquivo Pessoal

E o Vuaden achou que estava certo, como podem ver em entrevista à ZH Esportes. Porém o próprio Estatuto do Torcedor isenta quaisquer responsabilidades, como diz o artigo 13, inciso IV : “não portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, inclusive de caráter racista ou xenófobo“. Favor indicar aonde isto se aplica no caso deste sábado? Obrigado. Ah, e o Náutico poderá pagar multa pelo atraso. Quem atrasou foi o juiz, ora bolas!

No segundo caso, um torcedor escocês do Celtic Glasgow foi convidado a se retirar das Tribunas VIP do Pacaembu no jogo Corinthians x Sport Recife, tudo porque cometeu o crime capital de usar a camisa verde e branca do time, cores do rival Palmeiras. Sem comentários. Deve ser muito bizarro para um torcedor do Celtic, que tem uma secular (sem exagero) rivalidade com os Rangers especialmente no tocante à questão religiosa e social, correr risco de apanhar por causa das cores. Mas sem dúvida a culpa era dele.

O terceiro caso é mais próximo. No estádio Olímpico, meu amigo Fabrício Maraschin foi agredido, ameaçado, intimidado, teve sua carteirinha de sócio do Grêmio estragada (e por isto não viu o jogo Grêmio x Santos!), e teve sua câmera danificada pela Brigada Militar por ter cometido um crime inafiançável: girado a câmera na direção dos policiais.

A BM gaúcha, famosa por sua competência policial e absoluta incompetência em eventos esportivos (nada mais indicativo que as covardes agressões do jogo Internacional x Fluminense pelo Brasileirão de 2005, com centenas de feridos), teve mais um dia “não” nos estádios gaúchos. Dúvidas? Olhem na timeline dele, @finomaravilha, ao longo deste domingo.

Mas nada foi pior do que o ocorrido em Curitiba, no jogo Coritiba x São Paulo e sem dúvida o caso mais grave, uma garota de 13 anos torcedora do Coritiba e seu pai foram agredidos por marginais após receber a camisa de Lucas, jogador do São Paulo. Sob olhar complacente dos policiais (vejam o relato do jornalista, e torcedor do Coritiba, Rodrigo Salvador na ESPN), os dois foram agredidos por meia dúzia de marginais. O pai levou tapas e teve seu óculos roubado, sob o olhar complacente da inoperante polícia militar de Curitiba. Imagens do Globo Esporte aqui.

O Procurador-Geral do STJD, Paulo Schimitt, que considera seu papel levar a julgamento atletas, treinadores e dirigentes por questões mínimas, achou que a polícia etá certa: “Em Curitiba, a polícia agiu da maneira correta. Este tipo de conduta tem de ser considerado. Poderia acontecer tumulto e desordem, mas pela atitude da polícia não estou pensando em avaliar essa questão. O outro caso se refere a uma norma interna é a permanência em área vip, que é uma área específica. Não parece ser da nossa alçada. Fica a cargo do prejudicado, do direito civil“.

Desde quando autoridades policiais tem direito a se omitirem vendo cidadãos indefesos sendo agredidos por uma maioria?

Será que ele não pensa na imagem que a criança, sua família, tem do futebol nesta segunda-feira?
Gente da sua própria ‘torcida’? Que aliás, parece ter esquecido 2009…
Não sei se a Milena torcia mesmo para o Coritiba. Na real, nem importa.
Mas sei que ela deve estar repensando gostar deste esporte.

O futebol brasileiro teve neste final de semana dois dias trágicos. Sem mortes nem feridos graves.
Fisicamente.
Porém precisamos de mais Maracanãs e Morumbi lotados.

E menos escoceses do Celtic. Menos Fabrícios. Menos Ivanas. Menos Milenas.

E muito menos Paulo Schmitts.

A alma de quem ama este esporte apaixonante está ferida.