O seriado criminal N.C.I.S. é líder isolado de audiência nas noites da televisão norte-americana (e uma das minhas séries preferidas hoje em dia). Em sua décima temporada, o grupo de oficiais da Marinha que investiga crimes e protagoniza cenas de ação, arrebata em média 20 milhões de espectadores semanalmente, e já está garantida para o próximo ano. E N.C.I.S. tem muito a ver com futebol americano e a Segunda Guerra Mundial. Mas hein? Esta será a história que vamos contar agora…

Mark Harmon, protagonista do seriado NCIS e ex-quarterback - Foto: www.imdb.org

Buenas, a relação é justamente com seu principal personagem Leroy Jethro Gibbs, papel de Mark Harmon na série. Depois de brilhar no colegial, Harmon foi draftado pela UCLA, a tradicional Universidade da Califórnia, para jogar futebol americano universitário. Pelo UCLA Bruins, Mark jogou por duas temporadas como quarterback titular, com algumas vitórias históricas, sobretudo contra o campeão da NCAA Nebraska em 1972. Seu retrospecto foi de 17 vitórias e apenas 5 derrotas, recebendo ainda prêmios pelo desempenho esportivo ao final dos três anos de universidade. Porém Harmon não se tornou um atleta profissional, se tornando ator após se formar em Comunicação no ano de 1974.

Começou com uma boa carreira nos anos 70, com ótimas participações em seriados e minisséries. Nos anos 80, um filme de relativo sucesso (“Curso de Verão”, uma comédia clássica da “Sessão da Tarde”) e outros papéis de destaque dramático, como o serial-killer Ted Bundy no telefilme “The Deliberate Stranger“, quando foi nominado ao Globo de Ouro como melhor ator.

Nos anos 90, sua carreira estacionou até que foi escolhido para o papel de Leroy Gibbs, primeiro em uma ponta no também popular seriado militar J.A.G.’s e depois como ator principal em N.C.I.S. Desde então é um dos ícones da televisão norte-americana. Mas a história envolvendo o futebol americano não termina aqui...

Isto porque Mark é filho de Tom Harmon, lendário atleta de futebol americano e herói dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Tom Harmon foi o recordista de pontos nas temporadas de 1939 e 1940 jogando como halfback e kicker. Neste ano, foi eleito merecedor do “Heisman Trophy” como o melhor jogador universitário de futebol americano daquela temporada.

No jogo final de sua carreira universitária, uma vitória de 40-0 do Michigan Wolverines sobre o rival Ohio State, Harmon teve uma atuação memorável: dois touchdown aéreos, três touchdowns correndo, três interceptações , quatro pontos extras e três punts (todos de média de 50 jardas). Ao final do jogo, Tom Harmon foi ovacionado pela torcida adversária, algo jamais repetido para um jogador de Michigan.

Tom Harmon, pai de Mark com sua lendária camisa 98 no Michigan Wolverines - Foto: Heisman Trophy

Para vocês terem a idéia do impacto de Tom Harmon, sua camisa 98 no Michigan Wolverines foi aposentada, ninguém nunca mais utilizou a mesma! Além disto, ele foi a escolha número 1 do Draft da NFL, chamado pelo Chicago Bears. Porém Harmon optou por jogar pela AFL, então a liga rival da NFL (ambas seriam fundidas na década de 60 e formariam o que chamamos hoje de NFL, com Super Bowl e tudo o mais), e escolheu atuar pelo New York Americans.

E então ocorreu Pearl Harbor

Com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, Tom Harmon se alistou na Força Aérea no final de 1941. Logo depois, em 1943, seu avião caiu após uma tempestade e ele foi o único sobrevivente, ficando três dias perdido na selva amazônica, no território da então Guiana Holandesa (hoje Suriname). Resgatado, deixou os bombardeiros e virou piloto de caça,  transferido para o Pacífico. Lutou com extrema bravura contra as tropas japonesas pelo 449º Esquadrão de Caças , recebendo duas condecorações militares: a “Silver Star” e a “Purple Heart” por seus esforços de guerra.

Tom Harmon na Força Aérea dos Estados Unidos - Piloto condecorado

Após o final da Guerra em 1945, Harmon casou com Elyse Knox, atriz famosa da época, e foi jogar no Los Angeles Raiders por duas temporadas na NFL. Porém seus ferimentos de guerra (a medalha “Purple Heart” é concedida a quem morreu ou sofreu ferimentos graves em batalha) impediram sua carreira como era previsto antes da Segunda Guerra Mundial. Precocemente, Tom largou o esporte e se tornou um comunicador.

Tom Harmon, então atleta, era personalidade norte-americana nos tempos de Guerra - Capa da revista Life em novembro de 1943

Como jornalista, Harmon foi comentarista e narrador esportivo. Depois de rapidamente crescer na profissão, narrou jogos do Los Angeles Raiders na NFL por décadas pela CBS, até sua aposentadoria. Em 1990, Tom Harmon morreu de ataque cardíaco aos 70 anos.

Ao contrário do esperado, Mark não se tornou um grande jogador de futebol americano.

Mas sua carreira na televisão chegou a um patamar inesperado.

Não, Harmon não levou um Heisman Trophy, como esperava-se nos anos 70.

Mas certamente, aonde estiver, seu pai deve estar contente com a vida que levou.

O jovem Mark e um já veterano Tom Harmon nos anos 70, citando a possibilidade de um novo Heisman Trophy na família