Para ser dono de um time de futebol na Alemanha basta ser dono de uma vasta fortuna e comprar um time. Certo? Errado! Dos 36 times da primeira e segunda divisão da Alemanha, 34 são controlados por seus torcedores, incluindo o gigantesco Bayern de Munique. Apenas o Bayer Leverkusen (da indústria química Bayer), o Wolfsburg (da montadora Volkswagen) possuem “donos”, e ambos por razões históricas, já que foram fundados e são bancados há mais de 60 anos por estas empresas.

As regras financeiras são rigorosas e as punições em caso de débitos com clubes e jogadores são inflexíveis. Eventualmente algum magnata pode bancar dinheiro no clube, como Dietmar Hopp (fundador da gigante de tecnologia SAP e mecenas do Hoffenheim), mas o princípio se mantém: 50% +1 das ações do clube devem permanecer com seus sócios-torcedores.

O resultado é uma competição saudável. Sim, o Bayern de Munique ainda é díspar na questão financeira e tem uma arrecadação maior por ter 10 milhões de torcedores, com um poder de consumo espetacular. Mas também isto é reflexo de 23 anos de superávit financeiro, algo que não é refletido em nenhum outro grande clube europeu. E ainda assim, neste mesmo período desde 1991, ganhou 11 títulos nacionais e apenas uma Liga dos Campeões, exatamente o mesmo número do rival Borussia Dortmund. Um domínio bem menor que os protagonistas de outros países, especialmente na Inglaterra e Espanha. Basta vez que nos últimos 5 anos, três times diferentes foram campeões: o próprio Bayern de Munique, o Borussia Dortmund e o Wolfsburg.

Impulsionado pelos novos estádios do Mundial de 2006, a média de público alemã foi para a estratosfera. São absurdos 45 mil torcedores por jogo, a melhor do futebol mundial. E na Segunda Divisão é de 17 mil, melhor que quase todos os últimos anos no Brasil. Qual o segredo? A procura pela fidelização da classe média alemã, com ingressos baixos e a aproximação da torcida com o clube.

Temos um exemplo claro, em Dortmund com o Borussia. Com preço de 11 euros por jogo do Campeonato Alemão, o “paredão amarelo” do Borussia Dortmund no Westfalenstadion está sempre abarrotado, uma imagem marcante ao redor do planeta. São 20 mil torcedores que complementam a absurda média de 80 mil por jogo, a melhor do mundo. Com um sistema espetacular de formação de atletas, o time de Dortmund saiu da virtual falência há pouco menos de dez anos para uma solidez financeira impecável. Formando atletas aos montes, prospectando outros em times menores, o time obteve um lucro superior a 45 milhões de euros na última temporada, quando conquistou o bicampeonato nacional. Na Liga dos Campeões, em um grupo duríssimo com Real Madrid, Ajax e Manchester City, ficou em 1º lugar. Agora está nas semifinais da competição.

Mosaico da torcida do Borussia Dortmund na lendária Südtribüne – Crédito: AFP PHOTO / ODD ANDERSEN

Todos os clubes alemães fazem pacotes com bons preços e uma variedade de valores capazes de caber no bolso dos alemães. A receita com a venda de ingresso é importante, mas uma eventual renúncia financeira é largamente compensada pelos gastos no estádio no dia de jogos e em visitas ocasionais que se tornam rotineiras. Comprova-se isto avaliando os números de receitas dos times da Bundesliga: em média o retorno financeiro do “Match Day Experience” (424 milhões de euros) é bem próximo aos valores obtidos em cotas de televisionamento (594 mi euros) e patrocínios (523 mi euros). Uma diferença abissal em comparação com outros países, como a Inglaterra, Itália e Espanha, totalmente dependentes das receitas de TV.

Uma análise comportamental dos torcedores no “Match Day” deixou claro que o consumo e a sensação de felicidade é maior do que em outros países europeus, no qual o torcedor paga mais pelo ingresso mas consome pouco no estádio. O pacote de serviço oferecidos aos torcedores deixa o ambiente tão familiar que o consumo é elevado, como se fosse um shopping center. Imagens da Allianz Arena em Munique:

Não é à toa que 40% do público nos estádios alemães é composto por mulheres. Elas trazem crianças, e vão perpetuando este vínculo com o time, com a torcida, com o estádio. Com o futebol.

Esta relação com os demais países da Europa é que iremos estudar nesta quinta-feira, na penúltima parte da série.

 

SÉRIE COMPLETA – A REVOLUÇÃO ALEMÃ NO FUTEBOL