Ao longo desta semana, o Almanaque Esportivo fez uma profunda análise de tudo que ocorreu na Alemanha nos últimos quinze anos. De como o futebol alemão chegou ao fundo do poço (para os rigorosos padrões germânicos). E a maneira pela qual conseguiu se reerguer do atoleiro: planejamento, organização, investimentos corretos e disciplina financeira.

Muitas dos problemas e das soluções apresentadas ao longo desta semana são perfeitamente factíveis de serem implementadas no Brasil, salvo as habituais diferenças culturais e econômicas entre os dois países. Podemos avaliar em três grandes grupos: formação de atletas, alterações estruturais no plano de jogo e modelo financeiro dos clubes.

  • CATEGORIAS DE BASE

Esta talvez seja a parte mais fácil de ser implementada no futebol brasileiro, mas a que requer mais seriedade e organização. A CBF, federação mais rica e rentável do planeta, tem totais condições financeiras de bancar centros de treinamentos espalhados em todo o Brasil. A questão é a falta de interesse da entidade em reduzir os lucros em prol do desenvolvimento do esporte. Sem contar a falta de transparência da gestão de Ricardo Teixeira e da atual, do contestado José Maria Marín.

Ao contrário da entidade máxima do futebol brasileiro, preocupada apenas em faturar com a Seleção, os clubes estão muito mais avançados na formação de atletas. Muitos times fazem investimentos pesados em categorias de base, com despesas e estruturas de gigantes europeus. É o caso da dupla Gre-Nal, Cruzeiro, Atlético-MG, São Paulo, Santos e o Fluminense.

O problema é no aspecto técnico dos treinamentos. O foco nas categorias de base é na obtenção de títulos e a parte física é privilegiada. Jogadores fisicamente privilegiados se destacam contra adversários ainda em formação física. Esquema táticos focados na vitória e não na construção correta do perfil técnico do atleta são priorizados.

O resultado é bastante insatisfatório porque, excetuando-se os jogadores diferenciados de praxe, os atletas chegam ao profissional com deficiências severas em fundamentos básicos, como passe, cruzamento, conclusões ou cabeceio. Uma reformulação no modelo técnico das categorias de base deve ser estudado, adaptado à realidade brasileira, e executado individualmente pelo menos entre os grandes clubes do país.

O curioso é que esta interessante fonte de renda para clubes com torcidas tradicionais em mercados consumidores mais restritos, como times de capitais nordestinas ou de estados como Pará e Goiás, investem muito pouco em algo que poderia ser a salvação financeira dos mesmos. O comparativo é válido com clubes portugueses como Porto, Benfica, e holandeses como Ajax e PSV, de mercados bem menores na Europa mas que conseguem equilibrar confrontos muitas vezes com um trabalho de excelência na formação de jogadores e prospecção de talentos.

  • REVISÃO DE CONCEITOS TÁTICOS DO FUTEBOL NACIONAL

A discussão neste ponto é mais ampla. Há muito tempo não vemos um time brasileiro com uma solução tática original, jogando de um jeito diferente. Existe uma uniformidade de esquemas táticos, e os resultados se baseiam apenas na diferenças individuais dos elencos e no moral (estado anímico) de cada equipe.

Os clubes brasileiros não possuem uma “filosofia de futebol” alinhada com o histórico de cada equipe, implementado desde as categorias de base. Falta um trabalho de longo prazo, que transcenderia o mandato dos presidentes eleitos das equipes brasileiras e estaria no DNA de cada time.

A média geral dos treinadores nos grandes times brasileiros ganha muito e está totalmente parada no tempo, repetindo trabalhos insatisfatórios e pulando de um clube para outros. Novos nomes no cenário nacional demoram demais para se afirmar. Com salários dos maiores do mundo, a Série A do Brasileirão hoje expõe treinadores limitados, com soluções táticas ultrapassadas e que habitualmente sofrem em confrontos contra adversários de outros países da América do Sul, com poder econômico bastante inferior ao do Brasil.

A sistemática de treinos nos grandes clubes brasileiros é uma repetição de movimentações sem maior profundidade, focados em individualidades contra um trabalho em conjunto. A eterna insistência em “definição dos onze titulares” resulta em um desgaste físico do grupo principal, além da ausência de alternativas táticas.

Mario Gotze, da nova geração alemã, passa pelo brasileiro Júlio César em amistoso de 2012 – Foto: Michael Probst AP

Quando pressionados, os principais treinadores “escapam pela direita”, como o multicampeão Muricy Ramalho. Depois de escalar, pela primeira vez no ano, um esquema com três zagueiros justamente contra o Barcelona na final do Mundial, e ser impiedosamente surrado, Muricy ainda teve a audácia de dizer em 2013: “No Barcelona eles não levam muito a sério a parte tática”… Oi?

  • REFORMULAÇÃO DA MATRIZ DE RECEITAS DOS CLUBES BRASILEIROS

Hoje os times brasileiros sobrevivem das cotas de televisionamento. Mesmo que alguns, como Internacional e Grêmio, consigam receitas expressivas em seus quadros sociais, os estádios são fontes de despesas, não de receitas. O futebol brasileiro ainda não está pronto para uma presença de torcedores independentemente da fase do time, como vemos sistematicamente no Newcastle, Sunderland, Southampton e outros times médios. Afinal, o brasileiro só vai ao campo quando seu time está ganhando ou quase sendo rebaixado.

Sem esta fidelidade ainda impregnada no futebol brasileiro, o preço do espetáculo deve ser proporcional ao interesse do torcedor. Ao nível da competição. Ao poder aquisitivo do mercado envolvido. Para definições como estas, existem dois modelos financeiros: o inglês, com ingressos elitizados e que possuem demanda nos grandes clubes. E o alemão, intensamente discutido na última quarta-feira, focado na ocupação plena dos estádios.

Em decisões incompreensíveis de dirigentes de clubes e federações, ou atendendo à interesses das redes de TV, os preços mínimos dos jogos dos campeonatos inclusive competições menores como os Estaduais, estão muito acima de qualquer bom senso. É mais barato você assistir Borussia Dortmund x Bayern de Munique pelo Campeonato Alemão que ver Internacional x Esportivo pelo Gauchão. Isto simplesmente é inaceitável!

Com dezenas de milhões de pessoas entrando na emergente classe média brasileira, os times de futebol do país deveriam estar focando seus esforços neste público-alvo. Fidelizando um número maior de pessoas nos estádios, com uma taxa de ocupação bem superior à atual, aumenta a exibição dos patrocinadores aumenta neste mercado,pois a exposição de mídia da marca em um jogo com casa cheia é infinitamente maior que a de um estádio vazio.

O consumo no estádio aumenta, o número de famílias presentes aumenta. Um ciclo virtuoso de receitas.

A torcida é a razão de existir de todo e qualquer clube. Mais do que títulos, ídolos, estádios, dinheiro. Sem ela, o clube perde sua alma.

O futebol brasileiro precisa recuperar-se. Existem caminhos. E

O difícil é reconhecer os problemas e passar a trilhar, com paciência, planejamento e determinação.

Boa sorte, Brasil. E parabéns, Alemanha.

 

SÉRIE COMPLETA – A REVOLUÇÃO ALEMÃ NO FUTEBOL