Seguindo a série “Heróis do Esporte”, vamos contar agora a vida e a obra do boxeador alemão Max Schmeling, campeão mundial nos anos 30 e com uma maravilhosa história de vida. Confesso que não conhecia a trajetória deste atleta até ontem, quando vi um filme sobre ele “Fist of the Reich” (“Punho do Reich”, absurdamente traduzido por “Campeão de Hitler”). Mas depois do filme (com suas habituais liberdades artísticas) e de pesquisar sobre sua história, percebi que valia a pena contar aqui.

Mais do que um atleta de elite (e uma verdadeira lenda no esporte alemão), ele se mostrou uma pessoa solidária com todos, que agiu contra os interesses dos poderosos dirigentes nazistas, arriscando sua reputação e até sua vida tentando fazer o bem. E, no final de vida, já rico, ajudou um ex-rival e ainda executou inúmeros atos de caridade.

Nascido em 1905, Schmeling foi um lutador que iniciou sua carreira profissional nos anos 20. Chegou ao título europeu em 1927 e logo depois começou a lutar nos Estados Unidos. Em 1930, venceu o norte-americano Jack Sharkey por desqualificação (o adversário deu um golpe muito baixo) e se tornou campeão mundial. Aliás, até hoje, é o único campeão mundial por desqualificação do adversário. Na revanche, perdeu por pontos em uma decisão muito controvertida dos árbitros.

Em 1935, Schmeling bateu o compatriota Walter Neusel para inacreditáveis 102.000 espectadores, o maior público europeu de uma luta de boxe em todos os tempos.  Enquanto isso, Schmeling se tornava uma espécie de pedra no sapato dos dirigentes nazistas, pois por mais de uma vez ajudou judeus amigos. No incidente mais importante durante o expurgo de judeus em Berlim em 1935, salvou duas crianças em seu apartamento e conseguiu que elas saíssem com segurança da Alemanha. 

Louis x Schmeling, primeira luta

Louis x Schmeling, primeira luta

Porém a luta que marcaria sua vida foi no ano seguinte: em 1936, o azarão Schmeling bateu o então invicto e hoje lendário Joe Louis por nocaute no 12º e último round. Na preparação para a luta, Schmeling e seu tecnico Max Machon perceberam que Louis depois de um jab de esquerda abaixava levemente a mão esquerda. Espaço ideal para um direto de direita, que foi exaustivamente treinado. Louis caiu no 4º e depois no 12º round, perdendo sua invencibilidade. Foi considerada a maior zebra do esporte no ano.

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Com essa vitória, Schmeling se tornou uma lenda na Alemanha e peça oficial de propaganda do regime totalitário de Adolf Hitler. Avesso à política, não se envolvia muito com a forte divulgação de seus feitos pela propaganda nazista. Em 1938, houve a revanche e Louis venceu com facilidade, ainda no primeiro round na “Luta da Década” promovida pela imprensa, e novamente em Nova Iorque. Sobre esta luta, Max declarou nos anos 70: “Olhando para trás, eu praticamente fico feliz de ter perdido aquela luta. Imaginem se eu tivesse vencido com uma vitória. Eu nada tinha com os Nazistas, porém eles me dariam uma medalha. Depois da guerra, eu certamente seria considerado um criminoso de guerra”.

Em 1940, com a Segunda Guerra Mundial já em pleno vapor e já morando longe de Berlim, Schmeling foi convocado para o Exército. Saltou de paraquedas na Grécia, na Ilha de Creta em 1941. Sofreu uma lesão na perna e foi considerado inapto para o serviço militar. Passou boa parte do resto da guerra visitando campos de prisioneiros e buscando melhores condições para os cativos. Sem dinheiro após a guerra, fez algumas lutas até perder por pontos para Richard Vogt, já com 43 anos em 1948.

Max Schmeling em treinamento de paraquedista

Max Schmeling em treinamento de paraquedista

Em 1950, Schmeling passou a trabalhar no escritório da Coca-Cola. Rapidamente cresceu na empresa e se tornou executivo e dono da franquia para todo o norte da Alemanha. Se tornou milionário e dedicou sua vida à obras de caridade. Em dificuldades financeiras, o ex-rival Joe Louis foi ajudado por Max até sua morte em 1981. Max doou milhões de marcos para centros esportivos e entidades assistenciais até o final de sua vida.

Louis-schmeling-1971

Joe Louis e Max Schmeling em 1971 – Amigos até o fim da vida

Quando morreu, em 2005 aos 99 anos, sem filhos com a já falecida atriz Anny Ondra (morta em 1987), Schmeling doou toda sua fortuna para a caridade.

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