Ao longo da semana contei a história de Luz Long, o atleta da Alemanha nazista que ajudou o negro Jesse Owens a vencer a si próprio em Berlim, 1936. Depois contei a bela história do boxeador Max Schmeling, também da Alemanha nazista, que ajudou judeus, pobres e até mesmo um ex-rival dos ringues a se sustentar ao longo da vida. Só essas histórias já valeriam a pena.

Mas nenhuma história é parecida com a que eu vou contar. Talvez seja um dos maiores heróis vivos da humanidade. Trata-se do nadador soviético Shavarsh Karapetyan, que eu conheci através de uma dica do gente finíssima Lucas Kurz. Nascido na Armênia, então uma das repúblicas socialistas soviéticas, Karapetyan se tornou um atleta de elite no início dos anos 70. Era especialista em natação de velocidade em mergulho (ou seja, sem respirar), se tornando recordista mundial 11 vezes, 17 vezes campeão mundial e 13 vezes campeão europeu.

Shavarsh enquanto atleta da União Soviética - Nado em apneia

Shavarsh enquanto atleta da União Soviética – Nado em apneia

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Isso não foi nada perto do que ele faria em 1974, 1976 e 1985: salvando vidas por três vezes. São essas histórias deste ser humano incomum que iremos contar agora… 

ATO HERÓICO I – 8 DE JANEIRO DE 1974, TSAGHKADZOR – ARMÊNIA

Depois do sucesso dos atletas em regime de altitude nos Jogos Olímpicos da Cidade do México em 1968, a União Soviética montou um centro esportivo no popular resort de inverno de Tsaghkadzor, aproveitando a altitude para melhor preparar os atletas. Shavarsh Karapetyan era um dos atletas da natação que voltava de uma competição em Yerevan (capitão da Armênia), de ônibus. Com cerca de 30 passageiros, boa parte atletas, o ônibus estragou do lado de uma ribanceira. O motorista desceu para verificar, mas não deixou a marcha engatada e não viu que o ônibus se movia antes de descer do veículo.

Havia muita agitação e festa no ônibus, com música e cantoria e, no primeiro momento, ninguém percebeu. Quando o desastre, em direção à ribanceira se mostrou evidente, na agitação Shavarsh (o mais próximo da cabine do motorista), deu uma cotovelada no vidro e pulou no assento do motorista. Enfiou os pés nos freios, que não funcionaram. O ônibus ainda descia em direção do penhasco quando o nadador jogou o ônibus do outro lado, em direção à montanha, salvando a si e a todos no ônibus. Sobre o incidente, disse apenas “Eu estava mais perto do motorista, só isso. Fiz o que qualquer um faria”. 

ATO HERÓICO II – 16 DE SETEMBRO DE 1976 – YEREVAN, ARMÊNIA

Neste dia de triste lembrança para o povo armênio, Shavarsh Karapetyan se tornaria uma lenda na história da humanidade. Após uma discussão entre um passageiro e o condutor de um bonde na capital Yerevan, o veículo saiu desgovernado e caiu em um lago, a 10 metros de profundidade, totalmente poluído e com águas escuras, sem visibilidade alguma.  Shavarsh fazia sua corrida diária de 20km com seu irmão Kamo quando viu o acidente e ambos foram ajudar. Por uma coincidência inacreditável, o campeão mundial de natação em apnéia estava próximo ao acidente.

Shavarsh quebrou o vidro e começou a resgatar pessoas de dentro do bonde.  Sobre a experiência, algumas frases: “Eu dava uma respirada e mergulhava de novo. Já fazia por instinto, sem forças. Quase desmaiei algumas vezes, eu trazia alguém e meu irmão Kamo colocava no topo do bonde”. Outra:  “Em uma das última vezes, trouxe um assento ao invés de um ser humano. Até hoje aquele assento assombra meus pensamentos: poderia ter salvo mais um…”. E, finalmente: “Outros mergulhadores se aproximaram, mas nenhum tinha um tubo de oxigênio. Se um deles tivesse, eu poderia ter salvo mais vidas”.

Bonde no momento dos resgates

Bonde no momento dos resgates

Bonde no qual Shavarsh salvou 20 vidas

Bonde sendo resgatado

Com uma força inacreditável, Shavarsh tirou nada menos que 30 pessoas de dentro do bonde ao longo de vinte minutos. Vinte dos resgatados sobreviveram. No total, 46 dos 92 passageiros sobreviveram ao desastre. Exausto e contaminado pela água poluída do lago, o heróico atleta pegou pneumonia dupla e ainda com contaminação no sangue.  No fechado regime socialista de então, as imagens e relatos sobre o acidente só foram divulgados, em pequena nota, dois anos depois pela diretoria do Partido Comunista.

Depois de 45 dias no hospital, os médicos indicaram que ele nunca mais seria um atleta de elite, com aderência nos pulmões que incapacitavam uma profunda respiração (essencial no seu esporte). Shavarsh ainda quebrou o recorde mundial uma vez, mas nunca mais conseguiu competir de maneira regular.

Já veterano, Shavarh relembra local do resgate

Já veterano, Shavarh relembra local do resgate

ATO HERÓICO III – 19 DE FEVEREIRO DE 1985 – YEREVAN, ARMÊNIA

Já precocemente aposentado, Shavarsh estava indo para o trabalho quando percebeu que o prédio em frente ao seu emprego, o moderníssimo Sport-Concert Complex da capital armênia, estava em chamas. Além dos bombeiros, diversos voluntários ajudavam no incêndio. Ele não perdeu tempo e foi ajudar a controlar as chamas. Com uma mangueira, jogava água nos alicerces para ajudar no resgate, e já tinha salvo pessoas da fumaça, das chamas. De repente, uma explosão derrubou a todos no local, destruindo a área e fazendo Shavarsh desmaiar. Retirado do incêndio inconsciente, o nadador armênio sofreu queimaduras bastante graves e intoxicação, e passou semanas novamente no hospital se recuperando.

Hoje ele é um empresário bem sucedido no ramo de calçados (especialidade dos armênios) em Moscou e tem uma fábrica chamada ‘Segunda Respiração”. É casado e tem três filhos.

Shavarsh hoje

Shavarsh hoje

Por seus atos heróicos, Shavarsh Karapetyan recebeu :

  • Do governo soviético a “Ordem da Insígnia de Honra”.
  • Da UNESCO e do Comitã Olímpico Internacional recebeu o prêmio “Fair-Play”. 
  • Do governo armênio sua honraria mais alta, a “Ordem do Conde Loris-Melikov de Primeira Classe”
  • Do astrônomo russo Nikolai Chernykh, recebeu o nome de um cinturão de asteróides, o “3027 Shavarsh”.
  • E do povo armênio e do restante da humanidade, um eterno “muito obrigado” na memória de quem ele salvou. 

Sem aspas. Sem condicional.

Na pura definição: UM HERÓI

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