Aos 34 anos, sou um jovem veterano de Copas do Mundo. Criança, só lembrava de xingar Zico em 1986. Vivi a dor de 1990, na única vez que chorei pela Seleção Brasileira. Sublimei em êxtase em 1994, xinguei em 1998. Tomei um trago em 2002, vi a maionese desandar em 2006 e em 2010. Este ano, presenciei o #FiascoDosFiascos contra a Alemanha.

E posso dizer: essa foi a Copa das Copas. A minha, a sua, a nossa Copa. No fim, quem venceu foi o futebol: a campeã Alemanha joga um futebol ofensivo, de movimentação, ocupação de espaços. E premiou um trabalho de dez anos de reestruturação de seu futebol, mostrando que: a longo prazo, o objetivo sempre é alcançado se feito com método, eficiência e acima de tudo: qualidade!

Gotze, instantes após entrar para a história do futebol mundial.

Gotze, instantes após entrar para a história do futebol mundial.

Dezenas de milhares de argentinos, chilenos, colombianos, uruguaios, mexicanos e equatorianos fizeram esta Copa mais latina do que nunca. Trocamos experiências com os australianos, holandeses, japoneses, hondurenhos e russos. Mas a Copa foi dos milhões de brasileiros, que lotaram os estádios, deram show na fan fest, fizeram festa com os turistas. Xingaram, curtiram a Seleção. Todos nossos adversários, dos simpáticos argelinos aos colossais alemães, fizeram questão de agradecer à acolhida calorosa do povo do Brasil, o maior vitorioso em Mundiais. Cercada de tantos problemas na organização, o habitual jogo de cintura desta nação conseguiu superar as maiores dificuldades e conduzir com muito trabalho e dedicação uma organização que começou ruim, mas funcionou a contento na hora mais importante: durante a Copa.

Em quatro jogos históricos em Porto Alegre, presenciei a história: vi a primeira ajuda oficial de tecnologia em um gol no futebol. A primeira vitória da Argélia em 32 anos. Um jogaço surreal entre holandeses e australianos. E, por fim, a gigante alemã tomar susto atrás de susto contra o bravo time argelino. Bati papo com franceses, hondurenhos, alemães, russos, ingleses, irlandeses, argentinos, uruguaios, australianos, holandeses, brasileiros daqui e de fora. Quase chorei quando o apito final encerrou a participação do Beira-Rio na Copa: estava ali, e vi a história diante dos meus olhos.

Nunca, em toda a história recente dos Mundiais, tivemos tantos jogos marcantes, tantas seleções que agradavam por um motivo ou por outro. Tantos times jogando com tantos atacantes. E acima de tudo, tanto povo de povo. Jogos tão díspares como Alemanha x Argélia, Holanda x Austrália, Itália x Costa Rica entraram para a história dos mundiais. Vimos gigantes sucumbindo, como italianos, espanhóis e ingleses. E heróis inesperados, como os bravos costarriquenhos, os heróicos gregos (sim, é clichê). Vimos o crescimento de países do futuro, como Colômbia e Bélgica, jovens que buscam seu espaço entre os gigantes.

Mas também é uma Copa de lições: para o futebol brasileiro, que há décadas insiste em um calendário desorganizado, com um trabalho medíocre das categorias de base. Sem responsabilidade financeira dos clubes, com uma CBF patética que igualmente pouco se lixa para a formação de jogadores e só se preocupa com seus milionários lucros, levando a Seleção Brasileira para longe do país em amistosos no Oriente Médio, Londres ou aonde mais pagarem para ela jogar. E que para isso, colocam preços de jogos da Seleção Brasileira mais caros que em final de Copa do Mundo.

De um futebol com técnicos limitados, que ganham salários extraordinários e que sistematicamente levam “passeios táticos” de times sem nenhum poderio financeiro, baseando-se em um futebol de individualidades e bola parada. Como disse algumas vezes: o Brasil hoje reza por prodígios, ao invés de comemorar grandes jogadores. As catastróficas entrevistas de Felipão e Parreira após o desastre do Mineirão deixam claro que, se depender de pessoas que pensam como eles, ficaremos 24 anos sem títulos Mundiais.

Confesso que torci pela Alemanha na final: é a coroação de uma revolução feita sem armas, buscando a excelência, o talento e a organização. O título alemão começou nos fracassos de 2000 e 2004 na Eurocopa, nem o bizarro vice-campeonato de 2002, obtido em confrontos contra times fracos tirou o foco dos germânicos. Formaram jovens, buscaram treinadores, fortaleceram a Liga de Clubes, exigindo uma contrapartida pesada na formação de atletas, lotando os estádios. E com ingressos acessíveis, criando uma identidade nacional entre o Mannschaft e o povo alemão.

O gol do título não poderia ser mais sintomático: feito em uma jogada de dois jogadores reservas, aliando qualidade técnica e organização tática. Mas nenhum jogador é mais sintomático que Thomas Muller: não é craque. Mas se posiciona muito bem, cabeceia muito bem, cruza muito bem, chuta muito bem: ele faz quase tudo muito bem. E é exatamente isso que lhe torna um jogador espetacular. O símbolo de uma era.

Esta Alemanha, multicultural, ofensiva e técnica bateu na trave em 2006, 2008, 2010 e 2012. Mas hoje não.
Ela é Weltmeister.
Ela é campeã do mundo.
A Alemanha é a melhor de todas.

Obrigado, #CopaDasCopas

Minha Seleção da Copa:
Navas; Vlaar, Hummels e Garay; Cuadrado, Mascherano, Kroos, James Rodríguez e Blind; Robben e Müller.
Treinador: Jorge Luís Pinto (Costa Rica)
Revelação: Paul Pogba (França)
Craque: Arjen Robben (Holanda)