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Prévia da decisão da Copa da Escócia – Rangers e Hibernian – Foto: Bruno Cassali

O que pode acontecer em 114 anos? São raros os seres humanos que vivem ou viveram essa enormidade de dias. São poucos os clubes de futebol que já existiam lá no distante ano de 1902. Foi nesse 1902 que o Hibernian, tradicional clube dos católicos de Edinburgh, capital do país, venceu pela segunda e última vez a Copa da Escócia. Agora, a memória dos Hibees precisa voltar apenas ao 21.05 para relembrar a conquista nacional…

Na primeira final sem clubes da elite escocesa da história da Scottish Cup, O Hibs enfrentaria o gigante Rangers em Hampden Park. Na temporada, a única vitória de visitantes no confronto fora do Gers na Challenge Cup – torneio sem clubes da elite vencido pelos azuis de Glasgow em Março. Mas mesmo jogando em Glasgow, as mais de 50mil pessoas dividiam o estádio ao meio entre verdes e azuis.

Após fracassar nos playoffs de acesso a elite, onde perdeu a chance de retornar para a primeira divisão ao ser eliminado pelo Falkirk, o Hibs começou pressionando o Rangers e abriu o placar logo com 3min de jogo. John McGinn roubou a bola no campo ofensivo e Jason Cummings armou para Anthony Stokes na ponta esquerda. O atacante, emprestado pelo Celtic ao Hibs, avançou na diagonal e bateu colocado na saída de Wes Foderingham: Hibs 1-0.

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Hibs 1×0 – Foto: Bruno Cassali

Descansado após 21 dias sem jogos oficiais e com a volta à 1ª divisão garantida, o Rangers pintava como favorito ao título. E mesmo jogando mal no 1ºT achou o empate em uma de suas clássicas jogadas. Cruzamento da direita efetuado por James Tavernier e cabeçada certeira do experiente Kenny Miller, que antecipou-se a Darren McGregor para empatar: 1-1.

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Empate dos Rangers – Foto: Bruno Cassali

No 2ºT, apareceu o melhor jogador da temporada azul. Andy Halliday, volante pra lá de promissor, driblou a marcação e acertou o ângulo do gigante Conor Logan num canhotaço. A virada do Rangers aos 19’ da etapa final poderia coroar a temporada perfeita do clube com uma vaga na próxima Europa League. Porém, outro jogador emprestado do Celtic para o Hibs entrou em campo para inverter novamente o resultado…

Liam Henderson foi titular do Hibs durante boa parte do ano. Mas como não deve renovar seu empréstimo, perdeu espaço na reta final da temporada com os retornos dos machucados Fraser Fyvie e Dylan McGeouch. Enquanto Stokes se esforçava pra empatar lá na frente, o jovem meia entrou na partida pra organizar os esforços na meia-cancha verde e branca. O esforço da dupla deu resultado: faltando dez minutos, Hendo bateu corner na cabeça de Stokes na primeira trave e o empate apareceu novamente no placar: 2-2.

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Stokes faz para o Hibs – 2×2 – Foto: Bruno Cassali

A derrota do Hibernian para o Falkirk nos playoffs foi com um gol aos 92’ de jogo, após o time estar na frente durante 70min. E em abril, no mesmo Hampden Park, o Hibs viu Alex Schalk dar ao Ross County a vitória na Copa da Liga Escocesa também nos acréscimos. A apreensão da torcida nas arquibancadas era palpável: todos queriam o final de jogo e a prorrogação. Ninguém queria perder novamente nos minutos finais. Mas a história reservou um espaço de glória para Alan Stubbs e seus comandados.

A virada começou de novo nos pés de Anthony Stokes. Em outra jogada individual, o atacante quase marcou um golaço, impedido pelo desvio providencial de Wes Foderingham, goleiro do Rangers. Mas novamente em escanteio pelo lado direito, Henderson bateu com precisão na marca do pênalti, onde estava a cabeça do capitão David Gray. Virada verde-branca, jogadores emocionados correndo em direção da torcida, 3-2 no placar.

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Em 114 anos de espera, foram outras 10 finais do Hibs na Scottish Cup. Em todas, o clube saiu derrotadoEm 21 de maio de 2016, a história quase foi a mesma. E por não ter sido, a torcida não se conteve: com o apito final, o campo foi tomado pelos fanáticos Hibees, numa maré verde de êxtase e emoção.

 

Entretanto, a provocação também se fez presente, tanto para os jogadores do Rangers que deixavam o gramado quanto para a torcida adversária do outro lado de Hampden Park. E foi aí que começou a confusão. Os stewards e a polícia local não conseguiram conter o furor dos provocados e uma parte da torcida do Rangers também invadiu o gramado para uma batalha campal que manchou a tarde de sábado.

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Socos e pontapés de todos lados. Agressões em grupos, relatos de roubos e selvageria. Os jornalistas locais lembraram rapidamente de cenas parecidas acontecidas em 1980 num Old Firm entre Celtic e Rangers, que resultou no banimento do álcool em partidas de futebol no país. O reforço policial chegou com a cavalaria e separou azuis e verdes após 10min de grande confusão.

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As imagens das transmissões de televisão e do circuito interno de segurança do estádio serão analisadas pela polícia local para futuras punições. No sábado, 11 pessoas foram detidas por delitos menores em campo. A festa do título e o ato de erguer a taça foram adiados em meia hora no aguardo da saída de todos invasores do gramado. A baliza do lado direito foi quebrada nas celebrações. Nem 114 anos de espera justificam as cenas de barbárie pós-decisão.

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Invasão após o título (reparem no pedido para esvaziar o gramado) – Foto: Bruno Cassali

Com a conquista, o Hibernian vai jogar a mesma competição europeia que seu rival da capital, o Hearts – apesar de continuar na Championship pela terceira temporada seguida. Os times de Edinburgh se juntam ao Aberdeen como representantes escoceses na Europa League em 2016-17. O Rangers voltará ao convívio dos grandes na primeira divisão, mas não terá competições continentais para disputar. No sábado de decisões de copas nacionais, a glória foi Hibee com direito a por do sol de Leith – bairro onde fica o Hibernian – em Glasgow.

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A festa dos campeões – Foto: Bruno Cassali

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A comemoração do título – Foto: Bruno Cassali

por Bruno Cassali, direto da Escócia