Peço uma licença poética e reproduzir um texto antigo meu. Há exatos 15 anos, em uma curva da Avenida Beira-Mar em Florianópois, o Internacional perdia seu mais promissor jogador: Mahicon Librelato.

Duas semanas antes havia salvado o clube do rebaixamento no Campeonato Brasileiro de 2002, em uma calorenta tarde de Belém contra o Paysandú:

Técnico e raçudo, Librelato caiu nas graças da torcida. Foi o único atleta comprado em definitivo no dramático e complicado primeiro ano da “Era Fernando Carvalho” no Internacional.

O sentimento daquele dia pode fazer uma maior justiça ao que senti e ainda sinto. Então vou reproduzir o e-mail que escrevi cerca de 1 hora após saber da morte dele por uma página de jornal que, em um primeiro momento, eu simplesmente não acreditei. Em homenagem ao jovem ídolo, uma faixa singela há muitos anos perdura no Beira-Rio:

Librelato VIVE7 – Foto: www.scinternacional.net

Então, deixo aqui a redação que escrevi há dez anos, ainda estudante na UFRGS, ainda solteiro, ainda com cabelos e mais jovem:

Sex, 29 de Nov de 2002 8:14 am
“Alexandre Perin”

Assunto: 

Ano passado soube que o Grêmio queria um centroavante do Criciúma, seu nome era esquisito. Mahicon Librelato. Como o Cruzeiro também o quis, pensei: deve ter algo bom aí

Passei a cuidar ele na Série B. Vi muitos jogos no PPV, alguns do Criciúma. Mesmo sendo um time horrível, via que ele jogava boas partidas e sempre marcava um golzinho. No dia da última rodada, ele marcou o gol da salvação jogando com o ombro deslocado e salvou o Tigre da Série C.

Começaram os boatos de que o Inter e o Grêmio tentariam trazê-lo. O Cruzeiro desistira pelo passe alto. O Eduardo Jordão, amigo de longa data, sempre dizia: POR FAVOR, CONTRATEM ELE, JOGA MUITO. E eu concordava com ele.

Depois de uma arrastada negociação, batido o martelo: 750 mil reais, mais o passe de Paulo César e André Gheller e mais os empréstimos de Juca e Thiago Belmonte até junho de 2003.

Librelato, ainda se recuperando do ombro deslocado, só entraria no time em abril. Seu primeiro jogo, perdemos por 2×1 para o Atlético-MG mas ele marcou o gol. Depois marcaria no jogo seguinte, também contra o Galo e na Copa do Brasil. Fez outro contra seu ex-time, o Criciúma.

Como o semestre acabou ali, o Inter foi jogar amistosos. Ele não fez gol em amistoso, então perdeu a vaga no time titular. Recuperou só na metade do Brasileirão. Fez gols contra o Santos, Bahia, Portuguesa, Goiás, Atlético-PR… Mas o Inter seguia perto da zona de desespero.

Ao final do jogo contra o Cruzeiro, a imagem mais marcante era de Librelato, um catarinense que tinha se identificado com o Internacional, chorando copiosamente assim como milhares de torcedores nas arquibancadas e milhões pelo mundo afora.

Então, naquela tarde de 17 de novembro, ele começou a redenção colorada. Marcou o primeiro gol da vitória sobre o Paysandu. O pesadelo terminava ali, e ele era um dos responsáveis pelo salvamento.

Ontem, em uma chuva torrencial na capital dos catarinenses, seu carro caiu no mar e ele morreu.
Nunca tinha visto um jogador do Inter morrer.

É uma sensação ruim. Ruim não, péssima. Ainda mais quando era um jogador do clube, identificado, jovem, com um potencial imenso e que a torcida tinha grande carinho.

Aí, pessoal, dói bem mais…

É, amigos…

Tem coisas que só acontecem com o Internacional. Às vezes chega a ficar difícil continuar acreditando, mas eu continuo.

A fé colorada removeu montanhas ao longo da história, e um dia isto terá que ser premiado novamente,

Alexandre Perin
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Ciência da Computação
UFRGS-Brasil ICQ : 16295501

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